O Autismo na Família Espírita

As primeiras descrições sobre o comportamento autista estiveram associadas à esquizofrenia, uma vez que normalmente eclode no final da adolescência e início da fase adulta. Os registros médicos de um comportamento semelhante na infância surgiram na década de 1920. Desde então, os critérios diagnósticos vieram se tornando tão abrangentes que exigem a observação acurada de um profissional em saúde mental, para a não inclusão de outras enfermidades no espectro autista.
Ao nascimento, poucas diferenças são percebidas entre uma criança com ou sem um comportamento autista. Os primeiros sintomas característicos podem ser mais bem definidos por volta dos dois anos. O transtorno do espectro autista clássico é uma enfermidade do desenvolvimento neurológico. São descritos muitos fatores de risco para seu surgimento, com destaque a genética. É sabido que a idade dos pais é um dos principais itens a interferir em mutações dos gametas. Além disto, o períspirito dos pais e do reencarnante exercem fatores decisivos na escolha do espermatozoide.
Um dos principais diagnósticos diferenciais com o transtorno do espectro autista é a superdotação. As crianças que apresentam altas habilidades podem manifestar comportamentos idênticos ao transtorno do espectro autista, contudo sua aparente inflexibilidade comportamental e social é uma manifestação seletiva. Os superdotados costumam selecionar um rol de atividades de alto nível intelectivo que os afasta dos demais. A constatação desta condição dentro do lar espírita exige dos pais o esforço da humildade e treino educacional com o fim de auxiliar o filho a “descer do alto nível” para interagir com os outros. Muitas vezes, os pais encantados com as altas capacidades intelectivas do rebento, acabam por estimular o isolamento e incentivar grandes voos intelectuais, esquecendo de treinar seus filhos para o básico da vida, que são as vivências simples do cotidiano. Aqui, um remédio bem conhecido pelo espírita é eficaz: fora da caridade não há salvação. Levar o filho superdotado para contribuir socialmente na casa espírita pode ser uma ótima estratégia de incluí-lo.
Diferente da superdotação, o transtorno do espectro autista tende a cursar com déficit intelectivo, ainda que a alta capacidade de memorização do autista possa aparentar um padrão cognitivo elevado. No autismo existe uma disfunção no desenvolvimento pleno das capacidades cerebrais de interação com o mundo. A constatação desta neurodivergência no âmbito familiar exige a caracterização do grau de dependência do autista, que pode variar desde pequenos monitoramentos até um quase total cuidado em todos os atos para com a manutenção da vida.
O reconhecimento preciso do grau de limitação é fundamental para que os pais possam estimular seu filho a progredir no máximo de suas capacidades. Para isto, o compromisso paterno em criar uma psicosfera harmônica é essencial. Um ingrediente essencial é eliminar qualquer estado depressivo que possa se manifestar nos pais pela frustração de ter um filho autista. As crianças autistas, por terem uma dificuldade em estabelecer relações com o mundo mais elaboradas, tornamse introspectivas e tendem a ser altamente sensíveis às percepções inconscientes do contexto em que vivem. Caberá aos pais o compromisso de ter companhias espirituais dentro de casa que possam levar o autista a ter uma atmosfera espiritual mais elevada para crescer
Muitos outros transtornos mentais precisam ser levados em conta no diferencial do autismo, ou até mesmo em situações comórbidas. O mundo atual passa por uma verdadeira pandemia de transtornos ansiosos e depressivos, que podem manifestar sintomas idênticos ao autismo. Aqui, a criança costuma ser o termômetro da família e no cenário de conflitos conjugais geradores de turbulências na afetividade para com os filhos, as doenças emocionais infantojuvenis serão inevitáveis e são dos problemas mais comuns de nossos tempos. As associações do comportamento autista com o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade são frequentes, levando a necessidade de maior amparo familiar e cuidados profissionais para garantir um bom desempenho escolar.
Vivemos em uma sociedade que exige o adiar da chegada dos filhos por necessidades de formação profissional e adequação material. Neste contexto de pais de idade avançada, a chance de alterações genéticas é grande. Somado a isto, estamos em uma psicosfera cibernética, que tende a isolar o ambiente familiar na frente de telas, proporcionando alterações na conformação inconsciente perispiritual. Um terceiro fator é o sectarismo social, onde ficamos fechados em condomínios, com medo de tudo e de todos. Neste ambiente, a cada dia teremos mais comportamentos autistas para lidar.
A tarefa espírita é acolher e proporcionar aos recém-chegados para a jornada planetária um ambiente de inserção. Os seareiros da Boa Nova têm a oportunidade de implementar um mundo mais includente, capaz de facilitar amplo desenvolvimento da interação humana, sejam eles ou não neurodivergentes.

Por Juliano Flávio Rubatino Rodrigues
Médico Psiquiatra, colaborador do Grupo Scheilla