Marcado pela Revolução Francesa, pela expansão da Revolução Industrial e pelo surgimento de novos paradigmas intelectuais, o século XIX foi um período de intensas transformações políticas e científicas na Europa. Ao mesmo tempo em que despontavam os conceitos de liberdade e cidadania, o homem, em busca de respostas para tantas mudanças sociais, ansiava compreender questões fundamentais sobre a vida e a morte, enveredando pela filosofia, com o objetivo de refletir sobre a condição humana, a moralidade e o sentido da existência.
É neste contexto, no ano de 1804, que nasce Hippolyte Léon Denizard Rivail, figura que mais tarde ficaria conhecida como Allan Kardec, o codificador da Doutrina Espírita. Sempre pautado pela observação metódica e pelo rigor científico, Kardec, ao conciliar ciência e moral, codificou o Espiritismo em seu tríplice aspecto: ciência, filosofia e religião, a partir das inquietações e necessidades de sua época, oferecendo um olhar racional sobre os fenômenos espirituais e a vida após a morte.
Com bases sólidas, organizou os princípios do Espiritismo sob a razão e a fé, fazendo com que sua obra conquistasse credibilidade por toda a Europa e consolidando o surgimento da Doutrina Espírita para além do mero entretenimento. Mais tarde, sua ética e virtudes fizeram com que seus livros fossem reconhecidos como guias seguros para a elevação moral e espiritual da humanidade, inspirando gerações a buscar o conhecimento, a prática do bem e a compreensão das leis divinas.
Publicado em 18 de abril de 1857, O Livro dos Espíritos, primeira obra da Codificação Espírita, suscitou reações diversas na sociedade francesa, culturalmente marcada pelo tradicionalismo e pela inovação. Valorizando as artes, a literatura e a música, a França vivia o auge do Romantismo e de debates filosóficos sobre razão, ética e progresso, o que abriu espaço para os ideais espíritas, que uniam ciência, filosofia e espiritualidade.
Diferente da maior parte da sociedade, movida pela curiosidade em torno do ocultismo, da comunicação com espíritos e de outros fenômenos paranormais, a seriedade com que Allan Kardec investigou os fenômenos das mesas girantes, de forma sistemática e científica, sem se deixar levar por modismos ou misticismos, destacou-o como pesquisador comprometido com a ciência. Mais tarde, em O Livro dos Médiuns, segunda obra da Codificação, publicada em 1861, Kardec ressalta a importância da observação cuidadosa e da análise criteriosa dos efeitos mediúnicos, mostrando que apenas o estudo profundo pode separar a ilusão da realidade.