Falar sobre o legado de Allan Kardec é muito mais do que recordar a história do Codificador ou reconhecer a importância das obras fundamentais do Espiritismo. Seu verdadeiro legado permanece no convite que a Doutrina nos dirige: conhecer para compreender, compreender para transformar-se e transformar-se para servir melhor.
Isso nos leva a uma pergunta essencial: o que significa ser espírita? Seria suficiente acreditar na existência dos Espíritos, aceitar a reencarnação, frequentar uma instituição espírita ou conhecer as obras de Kardec? Tudo isso é importante, mas não representa a finalidade maior da Doutrina.
O conhecimento espírita deve produzir consequências na maneira como pensamos, sentimos e agimos. O Espiritismo não pretende apenas modificar nossas crenças, mas contribuir para nossa transformação.
Da crença à transfomação
Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVII, item 4, Kardec apresenta um dos critérios fundamentais para reconhecer aquele que verdadeiramente assimilou os princípios espíritas: “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.”
A palavra fundamental é esforços. Kardec não exige perfeição imediata. O verdadeiro espírita não é aquele que já venceu todas as suas imperfeições, mas aquele que as reconhece e trabalha conscientemente para superá-las. Pode ainda sentir orgulho, masprocura combatê-lo. Pode irritar-se, mas aprende a controlar-se. Pode magoar-se, mas exercita o perdão. Pode encontrar dificuldades para amar, mas começa pelo respeito e pela compreensão.
Ser espírita, portanto, não significa dizer: “Já me transformei.” Significa reconhecer humildemente: “Estou trabalhando para me transformar.”
Conhecimento que se transforma em vida
Em O Livro dos Espíritos, questão 625, Kardec pergunta qual o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para servir-lhe de guia e modelo. A resposta é direta: Jesus. O conhecimento espírita encontra, assim, sua direção moral.
A reencarnação deve ensinar responsabilidade e paciência. A lei de causa e efeito deve ajudar-nos a compreender as consequências de nossas escolhas, e não servir para julgarmos o sofrimento alheio. A mediunidade deve conduzir à disciplina e ao serviço, e a certeza da imortalidade deve ampliar nossa responsabilidade diante da vida.
Quanto maior o conhecimento, maior a responsabilidade. E essa responsabilidade encontra uma de suas maiores expressões na caridade. Na questão 886 de O Livro dos Espíritos, encontramos: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros e perdão das ofensas.”
A caridade, portanto, vai muito além da ajuda material. É saber ouvir, respeitar, evitar a palavra que humilha, compreender as dificuldades do próximo, oferecer nova oportunidade, exercitar a paciência e aprender a discordar sem agredir. É justamente nas pequenas situações da vida que descobrimos se o conhecimento espírita está realmente alcançando nossa conduta.
É fácil falar de serenidade quando ninguém nos contraria. O aprendizado aparece quando somos provocados. É fácil falar de fraternidade com aqueles que pensam como nós. O desafio surge na convivência com as diferenças.
É fácil falar de perdão. A transformação começa quando precisamos perdoar alguém que nos feriu.
É nesse momento que o Evangelho deixa de ser apenas leitura e começa a tornar-se vivência.
O Legado Que Continua Em Nós
O Espiritismo ensina que somos Espíritos imortais em permanente processo de educação e aperfeiçoamento. Não estamos prontos. Estamos aprendendo. A transformação moral acontece, muitas vezes, silenciosamente: na palavra agressiva que conseguimos conter; na crítica substituída pela compreensão; no pedido de desculpas que fazemos; no orgulho que cedemos para preservar a paz; na ajuda realizada sem necessidade de reconhecimento.
São pequenas vitórias para o mundo, mas grandes conquistas para o Espírito. Por isso, recordar o legado de Allan Kardec apenas por sua biografia seria insuficiente. O melhor monumento que podemos erguer ao Codificador é aquele construído em nossa própria consciência.
Cada vez que substituímos intolerância por compreensão, seu legado continua. Cada vez que escolhemos o diálogo em lugar da agressividade, seu legado continua. Cada vez que transformamos conhecimento doutrinário em caridade, seu legado continua. Ser espírita é assumir um compromisso com o estudo, a razão, a responsabilidade, a caridade e, principalmente, com a própria transformação moral.
Podemos resumir esse caminho em três movimentos:
O primeiro ilumina a inteligência. O segundo amplia a consciência. O terceiro demonstra se realmente compreendemos os dois primeiros. Por isso, diante do legado de Allan Kardec, talvez a pergunta mais importante não seja: “Quanto conhecemos do Espiritismo?” Mas: “Quanto o Espiritismo já conseguiu transformar em nós?”
Eis a grande síntese do legado de Allan Kardec:
Ser espírita é transformar conhecimento em consciência, consciência em esforço e esforço em amor vivido.
José Carlos Siúves
Colaborador do Grupo Scheilla
